Archive for Outubro, 2007

Tropa de Elite: o sadismo a serviço da sociedade

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

Segundo comemorou a “Veja”, em reportagem de 15 páginas, na edição 2.030, o maior mérito de “Tropa de Elite” é que ao lado de “Cidade de Deus” o filme se constitui numa exceção dentro da cinematografia brasileira, porque não aborda a realidade pela “ótica do bandido”.

Daí deriva, inclusive, ainda segundo a revista, o seu êxito de público, pois o espectador não quer saber como, nem por que, os monstros são criados. O que lhe interessa é ver que serão castigados e exterminados, para que ele possa, enfim, usufruir o merecido sono tranqüilo.

Moral da história: quem quiser fazer sucesso filmando no Brasil deve renunciar à crítica e especializar-se em copiar os filmes americanos do gênero, onde os “justiceiros” não vêem outra alternativa para defender a sociedade que não a de passar por cima das leis e barbarizar os criminosos, o que acabam fazendo, via de regra, com requintes de sadismo.

O problema desse enfoque é que, além de ser tipicamente fascista, vende uma ilusão ao espectador menos atento: a de que os monstros deixarão de assombrá-lo se forem tratados com um teor de crueldade e covardia igual ou maior ao que devotam às suas vítimas.

Não vão.

Primeiro porque enquanto a explosiva combinação de miséria, desigualdade social, desestruturação familiar, abandono e ignorância, que engendra a criminalidade em escala nas grandes cidades brasileiras, não for erradicada a fábrica de bandidos estará despejando diariamente no mercado novos e mais abundantes modelos. É natural que “Veja”, no intuito de fortalecer sua posição de porta-voz dos que amealham fortunas produzindo e aprofundando essa situação, procure ocultar tal fato. Mas nem por isso ele deixa de ser óbvio.

Segundo porque há uma enorme diferença entre tratar o criminoso com a dureza correspondente ao seu grau de periculosidade e tratá-lo com perversidade. A perspectiva de um tratamento perverso, longe de intimidá-lo e dissuadi-lo, apenas o torna mais desesperado e brutal. E, o que é ainda mais grave, reduz a zero a autoridade moral de quem apela para os métodos de “conduta informal” – eufemismo empregado por “Veja”, conforme o padrão da CIA, para designar a tortura e execução de prisioneiros.

Que autoridade pode ter um torturador ou um policial que mata a sangue frio bandidos rendidos? Que diferença esse tipo de detrito humano acha que tem do homicida sádico? Como ele, também está agindo à margem da lei, com a diferença de que é pago para respeitá-la - condição primeira de quem tem como profissão fazer com que os outros a observem. Aliás, para conservar um mínimo de respeito às suas pessoas, essas almas penadas costumam ocultar as façanhas até dos vizinhos e mesmo dos próprios familiares.

Que sono tranqüilo poderia ter o nosso espectador se a autoridade que deveria protegê-lo baixasse ao nível dos monstros que o atormentam? De que serviria uma autoridade despida de legitimidade moral? Até na guerra, já dizia Bonaparte, os fatores morais estão para os materiais assim como três está para um.

“Tropa de Elite” é contido em relação aos modelos americanos da estética da barbárie nos quais se inspirou. Produzidos aos borbotões por Hollywood, a partir da escalada no Vietnã, esses filmes tem o objetivo de levar o espectador a considerar natural que num conflito todo e qualquer meio seja empregado contra o inimigo. A idéia subjacente é a de que já que o adversário é invariavelmente um bárbaro que não se detém diante de nada o remédio é sermos mais bárbaros do que ele, do contrário a derrota será líquida e certa. O bom mocinho não é mais aquele que oferece ao bandido a chance de sacar primeiro. É o que o impede de fazê-lo atirando antes, de preferência pelas costas.

Em “Tropa de Elite” não há, como em “Direito de Matar-3”, a profusão de execuções - mais de uma centena - realizadas pelo “justiceiro” que diante da inércia policial resolve limpar o bairro. Há apenas duas. Numa, porém, o traficante, já ferido, rendido e sabendo que iria ser morto, pede que não lhe atirem na cara, “para não estragar o velório”. O vice-mocinho, num plano bem marcado, troca então sua arma por uma calibre 12 e dispara – adivinhem aonde. Uma edificante execução, para americano nenhum botar defeito.

Torturas também não há muitas, mas é sintomático que os heróis do Bope – Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar - considerem válido empregar a asfixia por saco plástico não só contra traficantes, mas também contra mulher de traficante, para que esta delate o seu esconderijo. A extensão do tratamento perverso a inocentes, honra seja feita, não é advogada em quaisquer casos, somente naqueles em que a recusa a colaborar com as diligências torne isso inevitável. Quanta magnanimidade!

Tudo se explica, segundo o filme, porque na Polícia Militar só há duas alternativas: “tornar-se corrupto ou assumir a guerra”. E guerra para eles é assim que se trava.

Um ex-capitão do Bope, que participou da confecção do roteiro de “Tropa de Elite”, disse que por se tratar de uma obra de ficção houve exageros e na realidade as coisas não se passam exatamente do jeito que foram apresentadas.

Esperamos que sim e que o macabro símbolo do batalhão - real e não imaginário, a caveira com as pistolas substituindo as tíbias e o punhal atravessado - não passe de uma bazófia de mau gosto.

O fato é que quando a autoridade policial acha bonito apresentar-se diante da sociedade com um símbolo que tomou emprestado aos bandidos ela corre o risco de confundir-se com eles e pode, mais dia menos dia, se ver na desagradável contingência de ter que acertar contas com a lei.

E nessa hora, podem estar certos: “Veja” e outros que açularam seus baixos instintos não vão aparecer em sua defesa. Que o digam os azes da Scuderie Le Coq.

Che: O despertar da Revolução

Che buscou transformar a sociedade e construir o novo homem

“Através desta homenagem ao Che estamos fazendo uma homenagem aquilo que ele mais representou, ou seja, ao ser humano, à  condição humana”, afirmou Cláudio Campos para o público que lotou completamente o teatro TAIB em São Paulo

Publicamos a seguir, pela sua atualidade, os trechos da palestra de Cláudio Campos, denominada “Che: O despertar da Revolução”. A palestra foi realizada no dia 8 de outubro de 1984, no Teatro TAIB, em São Paulo e se constituiu numa das principais homenagens realizadas em nosso país ao grande líder revolucionário da América Latina e dos povos no mundo inteiro.

O TAIB lotou para ouvir Cláudio Campos. Presentes dezenas de lideranças políticas e sindicais, parlamentares, intelectuais e estudantes. Secretários de Estado, deputados e senadores parabenizaram o Movimento Revolucionário 8 de Outubro – MR8 pela palestra e pela realização da homenagem.

O rico debate que se seguiu à exposição, revelou o profundo anseio do nosso povo em discutir e esclarecer todos os aspectos que dizem respeito aos caminhos da libertação política, social e econômica da nossa América Latina.

“No mundo inteiro, a figura do Che Guevara recebe o carinho de milhões de pessoas. Por que será que isso ocorre? Qual o significado da luta do Che Guevara?

Che iniciou sua luta revolucionária no período em que as oligarquias, diante do crescimento do movimento democrático, popular e nacional, pela ruptura da dependência ao imperialismo e pela libertação das forças produtivas latino-americanas, não viram outra solução senão instaurar as mais sanguinárias ditaduras por toda a parte de nosso continente. Primeiro, lutou na Guatemala, em 1954, quando foi derrubado o governo Jacobo Arbenz; posteriormente, se uniu no México à luta dos revolucionários cubanos contra a tirania de Batista. Naquele momento, ele sentiu que frente às ditaduras, que não conhecem outro argumento que não a força, o povo só poderia enfrentá-las através da resistência armada. Conclusão a que, muitos outros povos no mundo em diferentes épocas, foram obrigados também a chegar. Tal como os povos norte-americano, inglês, soviético, francês perceberam que para fazer frente à ferocidade do nazi-fascismo era necessário empunhar armas para derrotar as bestas-feras que procuravam impor a ditadura a toda a Humanidade. Será que o Che estava errado? Será que seria possível derrotar o fascismo e levar o povo à vitória sem que se empreendesse a resistência armada contra as ditaduras, contra o entreguismo, contra a corrupção desenfreada existente em nosso continente? A nós parece que não. Foi exatamente essa luta que derrotou as ditaduras de Batista, Somoza e hoje força o imperialismo a fazer mais e mais concessões em El Salvador.

Aqui no Brasil, depois de 1964 se instaurou um regime igualmente ditatorial. Em 1969, fechava-se o Congresso Nacional, impedia-se a posse do Vice-presidente de então, colocava-se no lugar uma Junta Militar inteiramente arbitrária que passava por cima de qualquer direito do nosso povo. Então também aqui foi necessário resistir à força do arbítrio, à força da política antipatriótica com a energia e o vigor correspondentes ao vigor espúrio que se voltava contra o povo.

O papel revolucionário dos patriotas da América Latina que, nas décadas de 50 e 60, se viram forçados a pegar em armas para enfrentar o fascismo e a corrupção, para lutar pela democracia e pela soberania nacional é uma luta com as mesmas características da luta de Tiradentes, Anita Garibaldi, Maria Quitéria, Sandino, Farabundo Martí, Bolívar e tantos outros que não tiveram alternativa para deixar claro que nossos povos não aceitam a prepotência, a arrogância e a submissão aos interesses antinacionais. Que nossos povos exigem ser livres, independentes e governados democraticamente e não apenas exigem, mas lutam por isso e não se submeterão a qualquer violência que procure subtrair nossos direitos à democracia e à liberdade.

Aquela resistência, naquele momento, foi indispensável para que se abrisse espaço para a mobilização pacífica do nosso povo. A firmeza e o compromisso com o povo revelados por Che e tantos outros revolucionários são umas das razões pelas quais os povos latino-americanos dedicam tão grande carinho pelo Che e seus companheiros, porque os povos mais do que ter consciência, mais do que ler nos livros, eles sentem que aquela luta só era possível de ser desempenhada, muitas vezes sem a menor chance de vitória imediata, por aqueles que fossem efetivamente comprometidos com os povos de nosso continente e com toda a Humanidade.

Mas há mais: aquele foi um momento de virada da luta de libertação da América Latina. Ao longo deste século muitas lutas foram travadas, mas faltava ainda amadurecimento, segurança e clareza. Muitas vezes, homens de valor tentaram aprender com a experiência de povos como a União Soviética e outros povos para tentar encontrar soluções para os problemas da América Latina. Mas não é possível transpor uma realidade externa para a nossa. Cada nação e cada época histórica é uma realidade diferente da outra. E então, essa tentativa conduzia freqüentemente a posturas livrescas, sectárias e até dogmáticas, independente da vontade, que era a melhor possível, dos que seguiam esse caminho. Mas não havia outro caminho.

Era preciso se comprometer com o povo, identificar os problemas centrais que impedem o nosso desenvolvimento e aprender com a experiência de outros povos; esse era o percurso a ser transitado até que o povo latino-americano ganhasse uma consciência clara sobre sua realidade, seus problemas e seus caminhos”.

SEM PERDER A TERNURA JAMAIS

“Foi no momento em que as forças do atraso intensificaram a resistência que se colocou a necessidade para os povos latino-americanos de dar um salto de qualidade político e ideológico, de superar as teses livrescas e a confusão imobilista. Para sentir qual era o problema central era preciso ir a luta. Nesse momento, irrompeu na América Latina um revolucionário novo, que era capaz não apenas de repetir, mas que integrava a sua consciência política e a sua teoria revolucionária com o seu sentimento humano e a sua forma de agir. A personalidade revolucionária se integrou de maneira muito mais profunda.

Todos nós sabemos da preocupação do Che não apenas em transformar a sociedade, mas também em construir o novo homem, mais integrado e mais comprometido com os seus semelhantes. Foi esse salto de qualidade que permitiu aos revolucionários entender que ali não adiantava falar frases progressistas e revolucionárias e se paralisar de forma comodista diante da barbárie, da opressão e da truculência.

Nós temos certeza que a Humanidade não vai viver eternamente sendo massacrada nas guerras, sendo dividida como se encontra hoje. O que precisa prevalecer e vai prevalecer, quando se derrotarem interesses de classe minoritários e opressores, é a capacidade dos seres humanos se harmonizarem e resolverem juntos os problemas que temos pela frente. Isso tem que ser motivado pelo conhecimento científico de onde estão as principais contradições. Mas o que o Che demonstrou, e a Humanidade reconhece no afeto que tem pela sua pessoa, é que o fundamental é o compromisso com o ser humano, é o respeito e amor pela condição humana. Che deixou clara a necessidade que todos não sejam mais divididos pela sociedade de classes e se unam numa sociedade solidária. E isso só se consegue quando se usa as teorias e os livros para fortalecer o sentimento. Se se negar os sentimentos e os sentidos, não vai se poder desenvolver teoria e ciência nenhuma.

É esse sentimento de compromisso com o ser humano que permite a vitória e permite ir ao fundo das coisas. Será que o Che, capaz que foi de inauditos sacrifícios, foi um homem triste e esmagado por eles? É evidente que não, porque ele desenvolveu a capacidade de se identificar com seu semelhante. Existe uma frase que o Che disse e que até bem pouco tempo, era mostrada timidamente. Hoje, pelo menos no Brasil, a figura do Che está indelevelmente ligada ao ponto de vista de que não se pode perder a ternura jamais”..

Extraído do Jornal Hora do Povo, Edição de 07 de Outubro de 2005