Jornalismo marrom

Fico curioso em saber qual é a real intenção de um “jornalista” renomado do Morumbi, ganhador de vários prêmios que passou por grandes veículos de imprensa, em escrever um “post” em seu blog para tentar denegrir uma entidade que faz um dos mais nobres trabalhos aqui em Paraisópolis, a alfabetização de jovens e adultos que é o Programa Escola do Povo.

Segundo esse “jornalista”, foi questionado por uma moradora de Paraisópolis sobre a seriedade do programa, num grande faro jornalistico foi para a internet procurar pelo programa e “caiu” num site e por curiosidade deixou uma mensagem que segundo ele não foi respondida, insistindo fez o envio novamente um mês depois, novamente não logrando sucesso (segundo ele). Fato que se faz necessário descobrir é se o site era realmente do programa, já que o mesmo está hospedado em www.escoladopovo.org desde fevereiro de 2007 com o projeto disponível para download, campanha de adote turma/aluno, parceiros, notícias veiculadas na imprensa entre outros.

Demonstrando sua competência o nobre repórter não se deu ao trabalho de verificar se o site era realmente do projeto, e caso sendo se sua mensagem havia sido enviada corretamente, na dúvida no rodapé do site correto tem o endereço e o telefone da entidade que coordena o programa, não conseguindo contato por email deveria tentar ligar ou ir à entidade, se a intenção era apurar a lisura do programa.

Demonstrando mais ainda seu modus operandi, ele chama de “coronéis da ONG” os coordenadores do programa sem ao menos ter entrado em contato com os mesmos nem feito um telefonema na tentativa de confirmar o recebimento das tais mensagens (se é que realmente as mandou).

O que de fato ocorreu é que até o presente momento não existe registro de que as referidas mensagens tenham sido transmitidas através da página de contato ou comentário em qualquer artigo publicado no site.

A má-fé demonstrada neste caso é evidente, pela falta de apuração da informação, pelo trato destinado à entidade que realiza o trabalho. Ser jornalista de gabinete deve dar muito trabalho mesmo.

“Depois da alfabetização, queremos estimular os estudos até o ingresso nas universidades”

“É um projeto-piloto onde o objetivo é alfabetizar 150 turmas por semestre, cada uma com 20 alunos”, explica Gilson Rodrigues, presidente da União dos Moradores de Paraisópolis sobre a Escola do Povo. E continua: “Depois dessa fase, as turmas alfabetizadas seguem para o ensino de 1ª a 4ª série, depois para o de 5ª a 8ª, e assim até o cursinho vestibular”.

Para estimular o ingresso nas universidades, ele conta que “temos aqui um cursinho em parceria com a Universidade Mackenzie, onde todos que passam no vestibular ganham bolsa de 100%”. Segundo Gilson, ao final do quarto semestre, serão 12 mil alunos em salas de aula.

Até agora, de acordo com um dos coordenadores do projeto, Joildo Barreto, a Escola já está com 40 turmas em processo de cadastramento e cerca de 400 alunos em fechamento de turma. Ele explica que o programa Escola do Povo tem como objetivo não só a alfabetização, mas “é um projeto profissionalizante para que as pessoas, após alfabetizadas, terminem seus estudos e possam ter oportunidade de um emprego melhor”.

Joildo conta que “o que mais impressiona é a determinação de aprender dos alunos. Eles estão demonstrando muita vontade de superar as dificuldades e seguir em frente”, ressalta. O coordenador contou também como a comunidade local está apoiando de diversas formas a Escola. “Tivemos casos muito interessantes de solidariedade, como o dono de um estabelecimento comercial chamado Bom Preço, onde fomos pedir o orçamento de quites escolares, e ele fez questão de não cobrar nada”. “Outro caso foi uma alfabetizadora que se atrasou para o treinamento, e teve que pegar um táxi de um conhecido aqui de Paraisópolis, e quando disse que estava indo para o treinamento da Escola do Povo, o taxista parou o taxímetro”.

Para Gabriel Cruz, também coordenador do projeto, “os alunos aqui enfrentam todas as dificuldades do dia a dia, e muitas vezes pensam em desistir. Mas a gente procura mostrar o contrário, que através do aprendizado de ler e escrever ele pode se inserir na sociedade e ter melhores condições de vida”.

Gabriel explica ainda que serão realizadas oficinas culturais, além da criação de um escola da samba, onde a idéia é resgatar o histórico da construção dessa comunidade que é principalmente formada por nordestinos, além de atividades esportivas e atendimento médico.

Júlia Cruz - Hora do Povo (16 de março de 2007)

Paraisópolis cria a Escola do Povo na batalha contra o analfabetismo

Entidades como a CGTB, UMES, CNAB, CMB, ITDP e moradores se unem determinados a vencer o analfabetismo numa das maiores favelas do Brasil. Com 80 mil moradores, Paraisópolis tem cerca de 15 mil analfabetos

Moradores da comunidade, comerciantes, empresas e entidades aceitaram o desafio de enfrentar e erradicar o analfabetismo numa das maiores favelas do Brasil e a segunda maior de São Paulo: Paraisópolis, onde vivem cerca de 80 mil habitantes, a maioria abaixo da linha da pobreza, e que convive com o índice de 15 mil analfabetos ou semi-analfabetos. “Quando a professora foi na minha casa para me convidar, eu não queria vir, achei que já tinha passado da idade de aprender coisa nova, que era difícil demais. Mas está sendo ótimo. Agora que estou conseguindo escrever meu nome, entendi que nunca é tarde para aprender”, conta a aluna Francisca da Silva Correa, mãe de quatro filhos, da primeira turma de alunos da Escola do Povo.

Inaugurado este ano, o projeto Escola do Povo é desenvolvido pela União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis em parceria com o Programa Brasil Alfabetizado, a CGTB (Central Geral dos Trabalhadores do Brasil), UMES (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo), CNAB (Congresso Nacional Afro-Brasileiro), CMB (Confederação das Mulheres do Brasil) e ITDP (Instituto do Trabalho Dante Pellacani). O sucesso do projeto garante também o apoio de lideranças comerciais e empresariais da região e do jornalista Chico Pinheiro, escolhido como patrono da Escola do Povo pelo trabalho que desenvolve entre moradores carentes da região de Paraisópolis.

Por conhecer melhor a realidade local, a maioria dos 130 professores que atua no projeto também mora na região de Paraisópolis. “Pra mim essa oportunidade está sendo muito importante. Levei a vida inteira tentando ajudar as pessoas e essa é uma maneira que estava faltando para me dedicar ainda mais”, conta Francinilda Oliveira da Silva, de 54 anos, professora do projeto. Francinilda, que mora no bairro há 21 anos, disse que mesmo tendo trabalhado 17 anos com alfabetização, “está sendo uma coisa nova para mim”. “Estou vendo um esforço muito grande dos alunos. Na minha turma tem uma senhora que, quando chegou aqui, mal conseguia pegar no lápis, e agora ela já está fazendo a letrinha. Às vezes eles pensam que é impossível, que são incapazes, e comemoram muito quando estão conseguindo”, afirma a professora.

Relatando suas experiências nas primeiras semanas de aula, a aluna Maria dos Prazeres contou: “Já estudei e parei, né? Mas tem gente que nunca estudou. Tem uma senhora que está aprendendo agora, e é bastante importante para ela e para cada um de nós. Eu pretendo continuar até o fim”.

PERSPECTIVA

O presidente da União dos Moradores, Gilson Rodrigues, explica que “aqui em Paraisópolis existem diversos programas desenvolvidos pela comunidade que visam melhorar as condições das pessoas, mas nós vimos que o foco principal do nosso trabalho deveria ser a educação”. Gilson, que destacou também o apoio dado pela Associação Panamby e da Associação das Mulheres de Paraisópolis, lembra que toda a comunidade ganha com o projeto. “É fundamental que as pessoas possam estudar para ter a perspectiva de ingressar numa universidade e a consciência do seu papel na sociedade”.

“O Brasil tem 24 milhões de analfabetos, e agora estamos em condições de transformar essa realidade”, afirmou o presidente da União dos Moradores de Paraisópolis ao falar das expectativas do programa de alfabetização. “Com o projeto de crescimento anunciado pelo governo federal, vimos que grande parte dele vai para a educação, e com o apoio da sociedade poderemos acabar com esse mal que há tanto tempo persegue o povo brasileiro que é o analfabetismo”.

JÚLIA CRUZ - Hora do Povo 16/03/2007 5-A